Revista Página22 :: ed. 04 (dezembro/2006)

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EDITORIAL - Água tratada ou da fonte?

As luzes de 2006 que se apagam parecem ter obscurecido também o debate sobre o desenvolvimento no Brasil. Em um país onde a política é meio de enriquecimento e de promoção social, onde pouco se planeja o futuro para além de quatro anos e onde a concentração de renda é uma das maiores do mundo, é de se perguntar o que de fato são entraves.

A legislação ambiental que a sociedade brasileira construiu é um dos poucos avanços de que se pode orgulhar, e talvez esteja muito à frente do pensamento das elites políticas e econômicas. As leis, vistas como obstáculo, na verdade são o esteio para que o País coloque em prática um modelo inovador e duradouro de desenvolvimento — em vez de um crescimento sem planejamento baseado em números mágicos, como o de 5% do Produto Interno Bruto. Capaz de causar, conforme for levado a cabo, prejuízos socioambientais irreparáveis.

As reportagens desta edição mostram como o debate parte de premissas equivocadas, a começar da régua utilizada: o PIB, nascido nos anos 50, já não mede uma realidade que se tornou complexa, composta de variáveis humanas, ambientais e econômicas que se entrelaçam. Até as populações distantes dos centros urbanos sabem disso. Nos confins do sertão — como retrata a Última página —, nas aldeias indígenas e nas pequenas vilas amazônicas, nem o PIB, nem o Índice de Desenvolvimento Humano servem mais. São como antenas obsoletas, incapazes de captar uma realidade feita não só de renda, mas de bemestar social, de qualidade ambiental, de tempo livre.

Marechal Taumaturgo, no Acre, é a pior cidade para se viver no País segundo o IDH. É que lá não tem asfalto, nem água tratada, nem creche: as pessoas andam a pé ou de barco, bebem água limpa na fonte, e as mães ajudam umas às outras no cuidado com as crianças. Qual é o crescimento que queremos?

Boa Leitura

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