Solução complexa

26/02/2014 - Valor Online
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Suplemento - Negócios sustentáveis

Lixo descartado na rua Frei Caneca, em São Paulo, ilustra bem as dificuldades da logística reversa no país

Olavo Cardoso: "Prioridade deveria estar em tecnologias para a menor geração de resíduos, mas a política tem sido produzir o lixo e depois investir em soluções para minimizar seus impactos"

Nada de suspense, drama ou comédia romântica.  Naquela noite, a sala 6 do concorrido Espaço Itaú de Cinema, no Shopping Frei Caneca, em São Paulo, abriu as portas para uma exibição incomum: um documentário sobre resíduos urbanos produzido por alunos do 3º e 4º anos de administração pública, economia e direito, da Fundação Getúlio Vargas (FGV).  Nas primeiras fileiras da plateia lotada estava a banca julgadora, composta por executivos de empresas como Natura e Braskem.  Ao final do filme, a principal conclusão: "A questão envolve múltiplos interesses e é muito mais complexa do que imaginávamos", afirma Olavo Cardoso, representante do grupo acadêmico que durante meses realizou visitas de campo e investigou o mundo do lixo urbano para decifrar suas conexões.

"Descobrimos que a prioridade deveria estar no consumo mais sustentável e em tecnologias para a menor geração de resíduos, mas a política tem sido gerar o PIB, produzir o lixo e depois investir em soluções para minimizar seus impactos, como a reciclagem", analisa Cardoso, recém-formado em administração pública, com plano de seguir carreira na área socioambiental.

O nome do filme, "Imagem de Nós", induz à reflexão sobre o resíduo como "espelho" dos consumidores e como um emaranhado de nós a desatar.  "A problemática do lixo é uma ferramenta inovadora para o aprendizado e formação de novos gestores em vários campos", justifica Mario Monzoni, diretor do Centro de Estudos em Sustentabilidade, da FGV.  O tema supera tabus e se incorpora à academia, ao envolver desde inserção social e planejamento, à conscientização da população e oportunidades de negócio.

De catadores a executivos de bancos, o documentário traz depoimentos que reforçam a necessidade de diferentes soluções para o lixo.  A rua Frei Caneca, endereço da exibição, retrata a dimensão dessa realidade.  Tradicional ponto de encontro de tribos urbanas de vários perfis, o local é também uma referência em diversidade quando o assunto é resíduo.  Em frente ao supermercado Extra, o caminhão de coleta exibe o slogan: "Lixo é só o começo".  "Mas é também alvo de confusões que só aumentam sua complexidade, como a tentativa de se resolver um problema social em detrimento do ambiental", opina Alexandre Alvim, diretor de novos negócios da Estre.  A empresa presta o serviço de coleta ao supermercado e a mais 3,4 mil clientes do setor público e privado, com aposta na triagem mecanizada de resíduos e uso deles para gerar energia.

Há opções mais simples e de envolvimento popular, como a entrega do lixo reciclável por consumidores nas lojas.  O Grupo Pão de Açúcar, que opera a rede Extra, recebe por ano em suas estações de reciclagem 14 mil toneladas de resíduos, encaminhadas a 83 cooperativas de catadores.  "A capilaridade do varejo é chave no processo", ressalta Antônio Salvador, vice-presidente de gestão de sustentabilidade.

Na rua Frei Caneca, chama atenção a quantidade de materiais usados para embalar roupas entregues aos clientes na loja 5àSec, maior rede de lavanderias do mundo.  Para cada camiseta dobrada utilizam-se saco plástico, fita adesiva, papelão e sacola para o transporte.  A reciclagem é por conta do consumidor.  "Um dos plásticos é biodegradável, o papelão vem prioritariamente de reflorestamento e os cabides podem ser devolvidos para reutilização em troca de desconto", afirma Sérgio Carvalho, diretor de marketing da franquia.

Todas as quintas-feiras pela manhã, o veículo da coleta seletiva municipal passa por aquela rua e leva os materiais para cooperativas.  Uma lei obriga os condomínios residenciais a manter recipientes para o lixo reciclável, em São Paulo.  "Chego antes do caminhão para pegar o filé mignon", conta Arnaldo Souza, catador autônomo que garimpa na calçada os resíduos mais valiosos, como latas de alumínio.  Na esquina com a rua São Miguel, o restaurante Madadayo faz diferente: paga R$ 400 mensais para um serviço particular fazer a coleta do lixo e levá-lo até um aterro em Guarulhos.  Sessenta litros por semana de óleo de cozinha velho são coletados por uma empresa que, em troca, fornece vassouras e produtos de limpeza ao estabelecimento.

Naquela área da cidade, de vida noturna agitada, o descarte de lixo na rua é excessivo.  A varrição representa quase metade do custo total da gestão de resíduos de São Paulo, de R$ 2,1 bilhões por ano.  São produzidas na capital 15 mil toneladas por dia, com aumento proporcional à expansão do consumo e ao desempenho da economia.  "Há problemas graves, como 4,3 mil pontos de descarte irregular", revela Silvano Silvério da Costa, presidente da Autoridade Municipal de Limpeza Urbana (Amlurb).  Outro nó está no baixo índice de coleta seletiva: 20% dos resíduos potencialmente recicláveis ou 1,6% do total de lixo gerado.

O plano para 2016 é processar metade do que pode ser reciclado, o que se pretende alcançar com a instalação de centrais mecanizadas de triagem.  Duas delas deverão ser inauguradas em junho.  "Para a ampliação do sistema, resta um apoio financeiro mais efetivo da indústria, dentro do princípio da responsabilidade compartilhada, estipulado por lei", ressalta Silvano.

A complexidade do tema atrasa a definição sobre como será realizada e quem pagará a conta da logística reversa de embalagens, o retorno à indústria após o consumo.  Essa obrigatoriedade foi instituída como um avanço pela nova lei de resíduos, sancionada em 2010, após duas décadas no Congresso Nacional.  O acordo setorial para as embalagens, no qual as empresas propõem um modelo conjunto de logística com metas, até agora não foi aprovado pelo governo.  "Foi preciso incluir pontos como a remuneração de prefeituras e catadores e maior clareza sobre a participação do comércio", explica Zilda Veloso, responsável pela área no Ministério do Meio Ambiente.

O governo também exigiu melhor definição sobre o controle das operações em nível nacional e regional.  O documento final irá a consulta pública.  Em ano eleitoral, a estimativa é de um desfecho a partir de abril.

"Temos uma lei, há um mercado promissor, mas falta reduzir a informalidade, qualificar catadores e oferecer incentivos para investimentos no parque reciclador", afirma André Vilhena, diretor-executivo do Compromisso Empresarial para Reciclagem.

Para o advogado Fabrício Soler, o assunto é juridicamente delicado: "A coleta de resíduos é uma responsabilidade constitucional das prefeituras e a montagem de uma estrutura independente pela indústria vai gerar conflitos".  Ele admite o risco de uma enxurrada de ações judiciais, capazes de atrasar a aplicação da lei, que também obriga o fim dos lixões.  "A contar pelo ritmo da última década, o país só chegará a uma situação adequada de aterros sanitários em 2060", adverte Carlos Silva, diretor da Abrelpe, a associação que reúne as empresas de limpeza urbana.